October 19, 2004


HOW LONG HAST THOU BEEN A GRAVE-MAKER? 


Um dos motivos por que se abomina a cremação dos mortos é o dever humano de preencher vazios - coroa da Criação, painço dos vermes -, e se há um ofício que não vai desaparecer jamais é o de clown. Sua função consiste em deixar-se observar, às vezes de perto demais, como modelo negativo, reassegurando o observador das próprias escolhas e razões anteriores. Mais do que a diversão dos outros, o clown é o fator de estabilidade por excelência; a grande tentação a evitar é a da complexidade psicológica, pois ela o impediria de apresentar nossa condição de modo tão claro, direto, sem adornos e acima de tudo l-i-t-e-r-a-l.

October 13, 2004


SWALLOW'D BAIT 


A propaganda, especialmente a propaganda política, é uma arte ainda na idade da pedra. Eu, por exemplo, sou o maior trouxa que já conheci pessoalmente - eu me conheci pessoalmente, e se não me engano anotei meu telefone, errado, num maço de cigarros vazio -, e mesmo assim permanece intacta minha convicção de que votar em alguém, seja quem for, é imoral. Em épocas eleitorais sinto saudade do tempo em que "apelar para a ignorância" significava abandonar a discussão verbal e partir para as vias de fato. Hoje em dia a porrada é uma atitude muito mais inteligente do que o debate. Os ignorantes ganharam voz e cátedra, são muitos e não se cansam; "te pego na saída" é quase sempre a resposta mais sensata.

Certamente existe alguma relação entre essa imunidade e o fato de que sempre tive, desde a infância, uma destreza natural para atravessar as ruas correndo, fora da faixa, escapando por pouco de caminhões e ônibus em alta velocidade. (Carros de passeio são baixos demais, não servem.) O próprio risco em si mesmo per se - navalhadas de rua, drogas pesadas, passeios noturnos pelas partes tétricas da cidade, alpinismo recreativo ou social - nunca me atraiu, mas essa prática eu não consigo abandonar. E estou cada vez melhor, cada vez mais próximo, quase na escala dos milímetros. A pavorosa expressão "tirar uma fina", para mim, remete a algo concreto, com peso, textura, cor e cheiro. É meu único esporte; não tem um nome, mas geralmente penso nele como "driblar a inexistência".

This page is powered by Blogger. Isn't yours?