November 15, 2004


EL EXPLORADOR NO ADMITE LOS MARCOS FLOTANTES O NO ESTÁ CONFIGURADO ACTUALMENTE PARA MOSTRARLOS 


São vendidos em caixas de papelão, ou mesmo embalagens de plástico-bolha, e preferem dançar trégua e catala a trabalhar, quando não dominados pela tristeza de não poder estourar antes do comprador as colméias do plástico-bolha, e em verdade vos digo que se não as estourardes não tereis vida em vós. Estão sempre por aí, ajudando a distrair os que distraem e ao mesmo tempo se preparando - à maneira dos gatos, que às vezes se fingem de domesticados para melhor se infiltrar em nosso território e conhecer nossas fraquezas - para o banquete final. E sabem que não há humano capaz de criar uma literatura do desespero que se compare às frases geradas por elétrons: "Saldo insuficiente", "Transação não autorizada" ou - no extremo - "Error loading operating system". O megafone de What Where tem a última palavra; o resto é rubrica de palco.

October 19, 2004


HOW LONG HAST THOU BEEN A GRAVE-MAKER? 


Um dos motivos por que se abomina a cremação dos mortos é o dever humano de preencher vazios - coroa da Criação, painço dos vermes -, e se há um ofício que não vai desaparecer jamais é o de clown. Sua função consiste em deixar-se observar, às vezes de perto demais, como modelo negativo, reassegurando o observador das próprias escolhas e razões anteriores. Mais do que a diversão dos outros, o clown é o fator de estabilidade por excelência; a grande tentação a evitar é a da complexidade psicológica, pois ela o impediria de apresentar nossa condição de modo tão claro, direto, sem adornos e acima de tudo l-i-t-e-r-a-l.

October 13, 2004


SWALLOW'D BAIT 


A propaganda, especialmente a propaganda política, é uma arte ainda na idade da pedra. Eu, por exemplo, sou o maior trouxa que já conheci pessoalmente - eu me conheci pessoalmente, e se não me engano anotei meu telefone, errado, num maço de cigarros vazio -, e mesmo assim permanece intacta minha convicção de que votar em alguém, seja quem for, é imoral. Em épocas eleitorais sinto saudade do tempo em que "apelar para a ignorância" significava abandonar a discussão verbal e partir para as vias de fato. Hoje em dia a porrada é uma atitude muito mais inteligente do que o debate. Os ignorantes ganharam voz e cátedra, são muitos e não se cansam; "te pego na saída" é quase sempre a resposta mais sensata.

Certamente existe alguma relação entre essa imunidade e o fato de que sempre tive, desde a infância, uma destreza natural para atravessar as ruas correndo, fora da faixa, escapando por pouco de caminhões e ônibus em alta velocidade. (Carros de passeio são baixos demais, não servem.) O próprio risco em si mesmo per se - navalhadas de rua, drogas pesadas, passeios noturnos pelas partes tétricas da cidade, alpinismo recreativo ou social - nunca me atraiu, mas essa prática eu não consigo abandonar. E estou cada vez melhor, cada vez mais próximo, quase na escala dos milímetros. A pavorosa expressão "tirar uma fina", para mim, remete a algo concreto, com peso, textura, cor e cheiro. É meu único esporte; não tem um nome, mas geralmente penso nele como "driblar a inexistência".

September 29, 2004


TALLAHASSEE LASSIE 


Coolitude mezzo-calabresa provoca sapinho; a chave do negócio é o tempo integral, e para os indolentes a melhor opção é desistir de vez, o quanto antes, como fiz por volta dos sete anos. Até hoje me pergunto se acertei na decisão em, ahn, si. Uma das conseqüências negativas - de que eu não desconfiava, à época - é a proletarização da vida social: nas semanas seguintes, na escola, minha única amizade foi com uma Kampfgenossin desabonitada (comecei a usar óculos cedo). (OK, na verdade ela era a retardada da classe. Mas éramos apenas amigos.) Houve, é claro, recaídas de adolescência: tentei escrever poemas imitando os portugueses, inclusive no sotaque. Era uma cidade pequena demais para abarcar nichos de mercado (o apogeu da carreira poética de Guerra Junqueiro foi ter nascido num lugar chamado Freixo de Espada à Cinta); além disso, o videocassete, a máquina que transformou todo mundo em intelectual, ainda não era popular, de modo que eu me julgava um incompreendido. Nada, porém, que um bom subemprego na capital não pudesse resolver para sempre - como de fato resolveu, embora a idéia de comprar roupas me pareça vagamente assustadora, até hoje.

September 27, 2004


NEXT STOP, ROCKET SCIENCE 


Acabo de voltar ao meu quarto de preço razoável, Diane, e o café está bom. Quando pequeno eu via reportagens na TV sobre o quanto ganhavam mal os palhaços, e alguns chegavam a pedir esmola na rua depois da aposentadoria. Sou do tempo dos palhaços bêbados, cocainômanos, pedófilos; pode ser piada para Bart Simpson - e é por isso, Diane, que tenho inveja das gerações mais novas -, mas não para mim. Aprendi a detestá-los muito cedo, e nunca vi graça naquele nariz ou naquela maquiagem: minha tolerância ao cinismo, embora anormalmente elástica, tem l-i-m-i-t-e-s, Diane, o que talvez - como sempre penso, em minha ingenuidade - cause confusões. De resto, prefiro o desprezo absoluto ao parcial, e sei apenas que o verdadeiro palhaço nato, daqueles raros capazes de esvaziar um pub sem tirar a roupa, sou eu; mas é uma atividade sem futuro, Diane, ou sequer o mínimo de charme necessário.

September 25, 2004


KOL NIDRE 


Mais relevante do que o Juízo Final é sua versão individualizada - não aquela, posterior à morte, mas a anterior, igualmente irrepetível. Alguns são julgados exclusivamente por seu pior: cada erro, por mais ínfimo, lhes custa muito caro, como se numa balança com apenas um prato. E às vezes o cenário não se move e parece não responder; os anjos e monstros se limitam a observar à distância.

O nômade sedentarizado é destrutivo em ciclos: recolhe do ambiente o que este tem de mais essencial, matando-o, e é espoliado pelo mesmo ambiente, morrendo. Um dia, todos percebem, e ele termina proscrito e com má reputação. Mas pelos motivos errados.

September 24, 2004


FLIPPER 


Observando os outros, consigo descobrir com razoável competência, mesmo num ambiente desfavorável, a ração diária de cereal estimulatório-admirativo recebida por cada um na infância. Há quem ache ofensivo, por exemplo, ouvir frases como "com licença", mas são casos extremos (e são essas pessoas, e não outras, que atingem o que as tradições espirituais e a Você S/A chamam de "realização"). E sempre acabo concluindo, sem desesperismos de Playmobil, que fui um subnutrido. Não há cura ou paliativo depois de atingida a idade adulta, exceto aprender a somatizar o problema sob alguma forma elegante, como enxaquecas e irritações de pele - ou talvez um tumor benigno, que sempre quis ter só para citar Paulo Francis: "Os médicos devem ser bons. Descobriram uma coisa benigna no meu organismo". Naquele tempo a fome era cosmopolita. Estavam todos ocupados demais promovendo campanhas para ajudar as crianças da Etiópia, o que também deve ter ajudado a obliterar meu desenvolvimento; Michael Jackson participava, e quem se lembra de detalhes como esse deve abandonar toda esperança.

September 20, 2004


PLAY THAT FUNKY MUSIC 


Há madrugadas, noites ou mesmo tardes em que eu deveria ter ouvido os conselhos de papai e aprendido a tocar guitarra, de preferência com a pose certa, o que deve ser a parte mais difícil. "Mas onde estão as negas d'antanho?", pergunto-me: já abandonei uma profissão inteira, a advocacia, simplesmente por gostar de subverter os clichês abreviativos do ramo, escrevendo coisas como "a b. sentença", "o t. acórdão", "o f. magistrado a quo". As pessoas ficavam ofendidas ao ler essas expressões, embora eu as considerasse uma obra aberta. Alimentar mistérios confere poder psicológico, ainda que em prejuízo próprio: "este mito, esta lenda, este Zippo". Não supreenderei ninguém, portanto, se disser que o número de causas que venci não foi exatamente portentoso.

Um dos problemas é que todos os músicos do país são obrigados, de dois em dois anos, a compor jingles para campanhas políticas, sob pena de cassação de licença. As melodias e arranjos são idênticos aos dos hinos das igrejas evangélicas for dummies; as letras também, bastando substituir "Jesus" pelo nome do candidato e atribuir-lhe algumas qualidades redentoras a mais (se eu soubesse dizer "paralelismo sígnico" sem pensar em sacanagem, defenderia tese de doutorado a respeito). Além disso, o mercado para bandas cover masculinas das Go-Go's não parece muito promissor, apesar da nostalgia oitentista. O melhor dos anos 80, afirmo com a autoridade de quem esteve lá, é que o Brasil ainda era uma espécie de Creuza (com z) e morava no quarto dos fundos mental: ninguém que se prezasse fazia idéia da existência da buchada de bode ou da cerâmica marajoara. Mas as coisas boas se recusam a voltar.

September 02, 2004


THE WRETCHED REFUSE OF YOUR TEEMING SHORE 


Brasileiro acha que participar da Great Conversation é ler revista importada para saber "o que estão falando lá fora"; nesse sentido, a GQ, a Economist, a New Yorker e a Esquire estão entre as mais perigosas (jornalismo consiste basicamente em saturar o mundo de informações irrelevantes para dificultar a circulação das relevantes). Defendo a proibição contingencial da venda de tais periódicos em território pátrio, para acabar com a idéia de que "o que estão falando" tem alguma importância em comparação com o que f-a-l-a-v-a-m, e estão esquecendo, lá fora, e aqui dentro nunca chegaram a falar porque os abaetés preferiram flambar todos os avatares do bispo Tainha antes que eles abrissem a boca. Quando chega a civilização, vão logo perguntando se é de comer; Oswald de Andrade achava esse costume putzgrila e super tchans, o que deve ser uma das razões por que São Paulo se orgulha de sua gastronomia. Se não for, a influência do modernismo de 1922 é menor do que eu imaginava.

September 01, 2004


A MOOCA DEIXA MAARCAS 


Só me interesso realmente pelo que o tempo testa e aprova; meus gostos são demasiado genéricos para tornar-me alguém memorável, e por isso me refugio na imprevisibilidade, mais coetânea com minha compleição. Em todo escritor genuíno, a inspiração recorre num ritmo mais ou menos regular, à maneira das funções corporais, ainda que as excretoras; no imitador barato, é uma espécie de eructação psíquica, indo e vindo a seu bel talante ou conforme o grau de suntuosidade da última refeição.

Vezenquã penso no Rio de Janeiro. É uma cidade triste, em que a paisagem não permite enxergar a insignificância e o ridículo do Brasil, visíveis em qualquer rua de São Paulo. Aqui é possível preservar, o tempo inteiro, a consciência de que não estamos no centro do mundo, ou mesmo num suburbiozinho ou cidade-dormitório do mundo. Não existe bom escritor brasileiro; se existisse, escreveria diretamente em inglês (literatura é um costume anglo-saxão imitado por outros povos com variados graus de incompetência) para vender seus livros num mercado digno do nome e ser lido por gente com cérebro homeotérmico. Não sei de nenhum, no Brasil, capaz de fazê-lo - mesmo entre os melhores, que sabem das coisas. O português brasileiro é um idioma insalubre: o lugar onde melhor é falado é o Maranhão, e o pior, São Paulo. Usá-lo corretamente pode causar desnutrição, barriga-d'água e cisticercose.

August 12, 2004


COMPANHIA DE DESTRUIÇÃO MAC MEDA 


A melhor maneira de conseguir aluguel barato é ficar balançando um pedaço de carne crua na janela: em pouco tempo os corretores de imóveis começam a aparecer com propostas verdadeiramente enternecedoras. Ouvi dizer que hoje em dia o tradicional método do sobretudo pode dar cadeia por indecência, não entendo. É a profissão mais antiga do mundo, nascida no momento em que Adão foi expulso do Jardim do Éden e a região se valorizou. Em cada um de nós, portanto, existe uma carteira de imóveis primordial, para usar a terminologia guénoniana: a casa onde morei a maior parte de minha infância passou por uma profunda reforma e hoje abriga uma família próspera e de bochechas r-o-s-a-d-a-s. Os demônios que vou deixando, como rastro psíquico, por onde quer que passe demoram para desencostar, mas a popularização do feng shui nos últimos anos talvez tenha contribuído para acelerar a limpeza de alguns locais.

Uma de minhas utilidades é funcionar como uma espécie de termômetro bípede (implume também, admito) dos mercados. Quando começo a freqüentar um bar, por exemplo, é sinal certo de que ele será fechado em poucos meses e demolido ou substituído por uma relojoaria, antiquário ou algum outro empreendimento de baixa presepagem, o que atrairá moradores de maior poder aquisitivo para a vizinhança. Os detetives particulares deveriam cobrar mais caro para investigar meu cotidiano, enquadrando o serviço como espionagem industrial, pois em matéria afetiva, política ou mesmo teratológica nunca representei perigo, infelizmente. A dura verdade é que Certas Pessoas Não Vêm Ao Mundo A Passeio, e alguém precisa trabalhar 24 horas por dia - lá vamos nós - para que as donas-de-casa possam ver sua novela em paz.

August 10, 2004


A VONTADE DO CÉU 


Minha primeira imagem do inferno foi a Zona Fantasma de Superman II, e até hoje a idéia de ser confinado num espelho - num espelho perpetuamente à deriva - me parece a mais assustadora das punições. Adotei o cristianismo um tanto a contragosto, como segunda opção; fosse eu um William Blake onívoro, escolheria o confucianismo, limitando minhas atividades a estudar os clássicos, organizar cerimônias e preparar os jovens para ser bons funcionários do governo e mestres das gerações futuras. Escreveria breves tratados e crônicas históricas e faria como Lu Bu Wei, que pendurou um exemplar de seu Lu-shi Chun-qiu (Os Anais da Primavera e do Outono de Lu) nos portões da capital e prometeu pagar uma grande soma em dinheiro a quem fosse capaz de acrescentar ou subtrair um único ideograma do livro sem arruiná-lo. E meus discípulos anotariam meus ensinamentos sob a forma de diálogos e aforismos, e depois de minha morte publicariam coletâneas aparentemente erráticas e isentas de qualquer preocupação com a fidelidade à eloqüência original.

Mas para viver assim, nas circunstâncias atuais, é preciso ser publicitário, o que exige, entre vários outros itens, uma copiosa coleção de gravatas humorísticas e a discografia completa do Jamiroquai. E mesmo nessa hipótese eu provavelmente não seria capaz, com minha indômita inaptidão para a vida em sociedade, de me dedicar por completo ao bem comum. No meu caso, portanto, seguir uma religião de solitários e desterrados talvez não seja uma afronta muito grave à ordem das coisas; hierarquia nada mais é do que a virtude sob outro nome, e o reino da Dinamarca está dentro de vós.

July 31, 2004


AUTO-AJUDA 


Prefiro não me lembrar de La Disparition; considero-o degenerescente, não só pela esterilidade do experimento como também porque é o adjetivo com o maior número de es em que fui capaz de pensar. Un Homme qui Dort, porém, foi um daqueles livros de pelúcia, um romance a que era possível recorrer, de lua em lua, em busca de afeto. Mas o tempo a tudo embolora, e atualmente a condição do personagem me parece muito pouco extrema: passam-se ao menos alguns bilhetes por baixo da porta, os pais ainda o recebem nas férias, o gato não morre, na verdade não há gato nenhum.

A explicação antropológica é inútil e simples: o que o francês vê como impasse existencial é rotina para o americano, e hoje "Sea-Drift" ou os "Whispers of Heavenly Death" me acalentam melhor, embora mais obliquamente. É a voz mais velha que já ouvi; não duvidarei se me disserem que nasceu com 81 anos, como um Lao-tsé para refugos de todas as tríades.

July 27, 2004


HAMSTER 


Foi só depois de contrair lepra que entendi enfim o decadentismo: perdi a capacidade de enxergar tons pastéis, sejam eles putativos ou reais. Hoje mesmo tive minha infusão de rubiáceas interrompida por uma equipe de TV; quando notei, estavam gravando depoimentos de clientes e tomadas gerais do salão da rubiateria. Isso me tira do sério. Não quero ver minha condição ("hanseníase" meu traseiro branco-lírio) explorada em reportagens de telejornal ou vídeos da Unicef. Corri até o banheiro para me esconder, mas a porta estava trancada. E exatamente nesse momento apontaram a câmera na minha direção.

Mas eu digrido, eu digrido. Não há desperdício pior do que o de tempo, nem mais encontradiço. A morte, como sabem os legistas, é um longo processo, e por isso é bom dar início a ele o quanto antes, sendo ou pelo menos alimentando a fama de opiômano, devasso ou poeta-em-prosa. Pode-se começar jogando fora as lentes de contato, fazendo a barba uma vez a cada três dias e usando somente produtos d'O Boticário aprovados por Romeu. Quando se percebe que as emoções obedecem a uma lógica rigorosa, é um sinal de que se está no caminho certo.

July 19, 2004


JAMAICA ABAIXO DE ZERO 


Americanos pagando a conta do restaurante e se encantando com o papel pintado local: sooo cute, diziam, ao ver o tococu-malhado ou sei lá qual o nome do bicho amazono-pantaneiro que aparece nas notas de vinte reais. Sabemos, de fato, produzir um papel pintado "bonitinho", certamente mais bonitinho do que o dólar, com seu Olho que Tudo Vê e demais símbolos da seita Universo em Desencanto. Põe-me sorumbático ver o talento nacional para as artes menores desperdiçado em tentativas de Grandes Vôos do Espírito (*ahem*) sob a forma de cinema, teatro, música e outras artes que dependem de água potável. Poderíamos vender nosso papel pintado em feiras típicas estrategicamente organizadas perto dos principais hotéis, junto com cestos de vime e carrancas do São Francisco, elevando a auto-estima pátria, de que os nativos tão desesperadamente precisam para manter a biodiversidade.

Não acredito na esquerda desde 1917, ou, pensando bem, 1789, mas meu Cletus the Slack-Jawed Yokel interior ainda acha que o país tem jeito, e não só esse. Revogar toda a legislação e copiar a das Bahamas - paraíso-fiscal-cum-praia-cum-tererê - é outra idéia viável.

Legal "países"; dá para organizar campeonatos esportivos e brincar de filatelia, vexilologia e numismática, estimulando a circulação de riquezas. Colaboro sempre que posso, como se um remelento de-menor de cidade litorânea, revelando os traços da cultura nativa a estrangeiros. Certa vez tentei explicar a um jovem casal europeu que a maior "manifestação cultural" de "nosso povo" ("simples e hospitaleiro") consiste em matar gatos - tamborim, churrasquinho de porta de estádio. Não sei se fui capaz de comunicar-lhes a espontaneidade naïf da prática; de qualquer maneira, eles ficaram um tanto deprimidos, especialmente a moça. É chato, mas prefiro ser honesto àquela outra especialidade nacional, perdigotar conselhos de vida para o resto do planeta. Como se brasileiro fizesse alguma idéia do que é vida.

June 14, 2004


CAFIOLA ESTUPORA DIVINA 


Sempre defendi a união civil de pessoas de qualquer sexo com o próprio dinheiro, a forma de amor mais discriminada da sociedade (carga tributária de 40% do PIB e consenso nacional de que ainda é muito pouco). Não consta que algum grupo de conscientização tenha participado da parada gay de ontem, na qual esteve presente até mesmo a prefeita de São Paulo, espécie de Torquemada municipal dessa opção erótica. Ninguém educa a população sobre as humilhações e preconceitos a que está sujeita a pessoa que sente atração - "anseios obscuros", diria Tom Wolfe - pelos frutos do próprio trabalho, num consentimento perfeitamente saudável e natural.

Penso em abrir um site com fotos de holleriths menores de 18 anos violentados pelas autoridades públicas, em nome de minha liberdade de amar.

May 31, 2004


PORCO COMPRIDO 


Se eu fosse mulher e publicasse um anúncio procurando namorado, pediria um homem "rico". As brasileiras parecem não gostar da palavra, preferindo um eufemismo PC como "sit. fin. def.", "situação financeira definida", que me qualifica, porque ninguém no mundo tem uma sit. fin. mais def. do que a minha. Mas até o eufemismo tem caído em desuso. E os homens brasileiros também nunca declaram com todas as letras o que realmente exigem de uma mulher, ou seja, infantilidade; às vezes pedem "inteligência", palavra que, no português do Brasil, tem uma série de conotações sutis, como na frase "passou as férias da faculdade no acampamento do MST". Estou quase convencido de que é alguma virose tropical.

May 08, 2004


SCHVITZIN' TO THE OLDIES 


Só não morre o sonho de refilmar The Graduate trocando Simon & Garfunkel por R.E.M. e "plásticos" por "granola" (título provável no Brasil: Sogrona é da Pontinha).

E nunca vou me esquecer de uma noite, em 1995, em que passei em frente à antiga redação do Diário Popular e vi rapidamente, no painel luminoso, as últimas notícias:

ND SCORNS OF TIME ....... TH'OPPRESSOR'S WRONG ....... THE PROUD MAN'S CONTUMELY ....... THE PANGS OF DISPRIZED L

April 02, 2004


ENCALHE 


Nas grandes editoras a seleção de originais parece feita por Saturno em pessoa, e de mau humor. Os autores deveriam pelo menos ter uma chance de defender seus livros perante uma banca: "Optei, na bibliografia, pelo sistema autor-data porque a natureza especializada do tema" etc. Tamanho rigor necessariamente acaba em irrelevância, o que explica a situação do mercado editorial (e da academia) hoje. Em suma, qualquer coleção de receitas ou guia de bares serve, desde que assinado por estilista, professor da USP, "brasileiro na ponte Rio-Londres-Nova York" e similares - livros utilitários por gente incapaz de contemplação. Enquanto isso, não faltam bons autores, sobretudo para quem tem conexão por banda larga.

Falo apenas como leitor; nessas batalhas minha função se limita a prestar apoio moral às tropas do lado de cá, como se uma daquelas coelhinhas da Playboy no Vietnã.

April 01, 2004


ELES ME TRATARAM MUITO BEM 


Quando pequeno aprendi que em vários países se comemora o Dia dos Néscios em 1.º de abril por causa do golpe de 1964, e demorei para descobrir a data verdadeira, 31 de março. O twist calendarial não espanta; a esquerda atribui também aos militares todos os casos de coma alcoólico, overdose e insucesso erétil ocorridos em suas fileiras nos últimos quarenta anos, ensinando nas escolas que a supressão da liberdade durante o período atingia o nível mitocondrial (a chamada interdisciplinariedade - no caso, história do Brasil e biologia). Mas não pretendo me vingar; jamais culparei o Partido pela síndrome de Estocolmo crônica de que padeço, preferindo acusar a Internet, o Rotary, os escoteiros e outros agentes de contaminação profissionais. Pelo menos tenho consciência de que meu estado de saúde não depende do governo, o que talvez indique uma chance de recuperação.

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