September 29, 2004


TALLAHASSEE LASSIE 


Coolitude mezzo-calabresa provoca sapinho; a chave do negócio é o tempo integral, e para os indolentes a melhor opção é desistir de vez, o quanto antes, como fiz por volta dos sete anos. Até hoje me pergunto se acertei na decisão em, ahn, si. Uma das conseqüências negativas - de que eu não desconfiava, à época - é a proletarização da vida social: nas semanas seguintes, na escola, minha única amizade foi com uma Kampfgenossin desabonitada (comecei a usar óculos cedo). (OK, na verdade ela era a retardada da classe. Mas éramos apenas amigos.) Houve, é claro, recaídas de adolescência: tentei escrever poemas imitando os portugueses, inclusive no sotaque. Era uma cidade pequena demais para abarcar nichos de mercado (o apogeu da carreira poética de Guerra Junqueiro foi ter nascido num lugar chamado Freixo de Espada à Cinta); além disso, o videocassete, a máquina que transformou todo mundo em intelectual, ainda não era popular, de modo que eu me julgava um incompreendido. Nada, porém, que um bom subemprego na capital não pudesse resolver para sempre - como de fato resolveu, embora a idéia de comprar roupas me pareça vagamente assustadora, até hoje.

September 27, 2004


NEXT STOP, ROCKET SCIENCE 


Acabo de voltar ao meu quarto de preço razoável, Diane, e o café está bom. Quando pequeno eu via reportagens na TV sobre o quanto ganhavam mal os palhaços, e alguns chegavam a pedir esmola na rua depois da aposentadoria. Sou do tempo dos palhaços bêbados, cocainômanos, pedófilos; pode ser piada para Bart Simpson - e é por isso, Diane, que tenho inveja das gerações mais novas -, mas não para mim. Aprendi a detestá-los muito cedo, e nunca vi graça naquele nariz ou naquela maquiagem: minha tolerância ao cinismo, embora anormalmente elástica, tem l-i-m-i-t-e-s, Diane, o que talvez - como sempre penso, em minha ingenuidade - cause confusões. De resto, prefiro o desprezo absoluto ao parcial, e sei apenas que o verdadeiro palhaço nato, daqueles raros capazes de esvaziar um pub sem tirar a roupa, sou eu; mas é uma atividade sem futuro, Diane, ou sequer o mínimo de charme necessário.

September 25, 2004


KOL NIDRE 


Mais relevante do que o Juízo Final é sua versão individualizada - não aquela, posterior à morte, mas a anterior, igualmente irrepetível. Alguns são julgados exclusivamente por seu pior: cada erro, por mais ínfimo, lhes custa muito caro, como se numa balança com apenas um prato. E às vezes o cenário não se move e parece não responder; os anjos e monstros se limitam a observar à distância.

O nômade sedentarizado é destrutivo em ciclos: recolhe do ambiente o que este tem de mais essencial, matando-o, e é espoliado pelo mesmo ambiente, morrendo. Um dia, todos percebem, e ele termina proscrito e com má reputação. Mas pelos motivos errados.

September 24, 2004


FLIPPER 


Observando os outros, consigo descobrir com razoável competência, mesmo num ambiente desfavorável, a ração diária de cereal estimulatório-admirativo recebida por cada um na infância. Há quem ache ofensivo, por exemplo, ouvir frases como "com licença", mas são casos extremos (e são essas pessoas, e não outras, que atingem o que as tradições espirituais e a Você S/A chamam de "realização"). E sempre acabo concluindo, sem desesperismos de Playmobil, que fui um subnutrido. Não há cura ou paliativo depois de atingida a idade adulta, exceto aprender a somatizar o problema sob alguma forma elegante, como enxaquecas e irritações de pele - ou talvez um tumor benigno, que sempre quis ter só para citar Paulo Francis: "Os médicos devem ser bons. Descobriram uma coisa benigna no meu organismo". Naquele tempo a fome era cosmopolita. Estavam todos ocupados demais promovendo campanhas para ajudar as crianças da Etiópia, o que também deve ter ajudado a obliterar meu desenvolvimento; Michael Jackson participava, e quem se lembra de detalhes como esse deve abandonar toda esperança.

September 20, 2004


PLAY THAT FUNKY MUSIC 


Há madrugadas, noites ou mesmo tardes em que eu deveria ter ouvido os conselhos de papai e aprendido a tocar guitarra, de preferência com a pose certa, o que deve ser a parte mais difícil. "Mas onde estão as negas d'antanho?", pergunto-me: já abandonei uma profissão inteira, a advocacia, simplesmente por gostar de subverter os clichês abreviativos do ramo, escrevendo coisas como "a b. sentença", "o t. acórdão", "o f. magistrado a quo". As pessoas ficavam ofendidas ao ler essas expressões, embora eu as considerasse uma obra aberta. Alimentar mistérios confere poder psicológico, ainda que em prejuízo próprio: "este mito, esta lenda, este Zippo". Não supreenderei ninguém, portanto, se disser que o número de causas que venci não foi exatamente portentoso.

Um dos problemas é que todos os músicos do país são obrigados, de dois em dois anos, a compor jingles para campanhas políticas, sob pena de cassação de licença. As melodias e arranjos são idênticos aos dos hinos das igrejas evangélicas for dummies; as letras também, bastando substituir "Jesus" pelo nome do candidato e atribuir-lhe algumas qualidades redentoras a mais (se eu soubesse dizer "paralelismo sígnico" sem pensar em sacanagem, defenderia tese de doutorado a respeito). Além disso, o mercado para bandas cover masculinas das Go-Go's não parece muito promissor, apesar da nostalgia oitentista. O melhor dos anos 80, afirmo com a autoridade de quem esteve lá, é que o Brasil ainda era uma espécie de Creuza (com z) e morava no quarto dos fundos mental: ninguém que se prezasse fazia idéia da existência da buchada de bode ou da cerâmica marajoara. Mas as coisas boas se recusam a voltar.

September 02, 2004


THE WRETCHED REFUSE OF YOUR TEEMING SHORE 


Brasileiro acha que participar da Great Conversation é ler revista importada para saber "o que estão falando lá fora"; nesse sentido, a GQ, a Economist, a New Yorker e a Esquire estão entre as mais perigosas (jornalismo consiste basicamente em saturar o mundo de informações irrelevantes para dificultar a circulação das relevantes). Defendo a proibição contingencial da venda de tais periódicos em território pátrio, para acabar com a idéia de que "o que estão falando" tem alguma importância em comparação com o que f-a-l-a-v-a-m, e estão esquecendo, lá fora, e aqui dentro nunca chegaram a falar porque os abaetés preferiram flambar todos os avatares do bispo Tainha antes que eles abrissem a boca. Quando chega a civilização, vão logo perguntando se é de comer; Oswald de Andrade achava esse costume putzgrila e super tchans, o que deve ser uma das razões por que São Paulo se orgulha de sua gastronomia. Se não for, a influência do modernismo de 1922 é menor do que eu imaginava.

September 01, 2004


A MOOCA DEIXA MAARCAS 


Só me interesso realmente pelo que o tempo testa e aprova; meus gostos são demasiado genéricos para tornar-me alguém memorável, e por isso me refugio na imprevisibilidade, mais coetânea com minha compleição. Em todo escritor genuíno, a inspiração recorre num ritmo mais ou menos regular, à maneira das funções corporais, ainda que as excretoras; no imitador barato, é uma espécie de eructação psíquica, indo e vindo a seu bel talante ou conforme o grau de suntuosidade da última refeição.

Vezenquã penso no Rio de Janeiro. É uma cidade triste, em que a paisagem não permite enxergar a insignificância e o ridículo do Brasil, visíveis em qualquer rua de São Paulo. Aqui é possível preservar, o tempo inteiro, a consciência de que não estamos no centro do mundo, ou mesmo num suburbiozinho ou cidade-dormitório do mundo. Não existe bom escritor brasileiro; se existisse, escreveria diretamente em inglês (literatura é um costume anglo-saxão imitado por outros povos com variados graus de incompetência) para vender seus livros num mercado digno do nome e ser lido por gente com cérebro homeotérmico. Não sei de nenhum, no Brasil, capaz de fazê-lo - mesmo entre os melhores, que sabem das coisas. O português brasileiro é um idioma insalubre: o lugar onde melhor é falado é o Maranhão, e o pior, São Paulo. Usá-lo corretamente pode causar desnutrição, barriga-d'água e cisticercose.

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