July 31, 2004


AUTO-AJUDA 


Prefiro não me lembrar de La Disparition; considero-o degenerescente, não só pela esterilidade do experimento como também porque é o adjetivo com o maior número de es em que fui capaz de pensar. Un Homme qui Dort, porém, foi um daqueles livros de pelúcia, um romance a que era possível recorrer, de lua em lua, em busca de afeto. Mas o tempo a tudo embolora, e atualmente a condição do personagem me parece muito pouco extrema: passam-se ao menos alguns bilhetes por baixo da porta, os pais ainda o recebem nas férias, o gato não morre, na verdade não há gato nenhum.

A explicação antropológica é inútil e simples: o que o francês vê como impasse existencial é rotina para o americano, e hoje "Sea-Drift" ou os "Whispers of Heavenly Death" me acalentam melhor, embora mais obliquamente. É a voz mais velha que já ouvi; não duvidarei se me disserem que nasceu com 81 anos, como um Lao-tsé para refugos de todas as tríades.

July 27, 2004


HAMSTER 


Foi só depois de contrair lepra que entendi enfim o decadentismo: perdi a capacidade de enxergar tons pastéis, sejam eles putativos ou reais. Hoje mesmo tive minha infusão de rubiáceas interrompida por uma equipe de TV; quando notei, estavam gravando depoimentos de clientes e tomadas gerais do salão da rubiateria. Isso me tira do sério. Não quero ver minha condição ("hanseníase" meu traseiro branco-lírio) explorada em reportagens de telejornal ou vídeos da Unicef. Corri até o banheiro para me esconder, mas a porta estava trancada. E exatamente nesse momento apontaram a câmera na minha direção.

Mas eu digrido, eu digrido. Não há desperdício pior do que o de tempo, nem mais encontradiço. A morte, como sabem os legistas, é um longo processo, e por isso é bom dar início a ele o quanto antes, sendo ou pelo menos alimentando a fama de opiômano, devasso ou poeta-em-prosa. Pode-se começar jogando fora as lentes de contato, fazendo a barba uma vez a cada três dias e usando somente produtos d'O Boticário aprovados por Romeu. Quando se percebe que as emoções obedecem a uma lógica rigorosa, é um sinal de que se está no caminho certo.

July 19, 2004


JAMAICA ABAIXO DE ZERO 


Americanos pagando a conta do restaurante e se encantando com o papel pintado local: sooo cute, diziam, ao ver o tococu-malhado ou sei lá qual o nome do bicho amazono-pantaneiro que aparece nas notas de vinte reais. Sabemos, de fato, produzir um papel pintado "bonitinho", certamente mais bonitinho do que o dólar, com seu Olho que Tudo Vê e demais símbolos da seita Universo em Desencanto. Põe-me sorumbático ver o talento nacional para as artes menores desperdiçado em tentativas de Grandes Vôos do Espírito (*ahem*) sob a forma de cinema, teatro, música e outras artes que dependem de água potável. Poderíamos vender nosso papel pintado em feiras típicas estrategicamente organizadas perto dos principais hotéis, junto com cestos de vime e carrancas do São Francisco, elevando a auto-estima pátria, de que os nativos tão desesperadamente precisam para manter a biodiversidade.

Não acredito na esquerda desde 1917, ou, pensando bem, 1789, mas meu Cletus the Slack-Jawed Yokel interior ainda acha que o país tem jeito, e não só esse. Revogar toda a legislação e copiar a das Bahamas - paraíso-fiscal-cum-praia-cum-tererê - é outra idéia viável.

Legal "países"; dá para organizar campeonatos esportivos e brincar de filatelia, vexilologia e numismática, estimulando a circulação de riquezas. Colaboro sempre que posso, como se um remelento de-menor de cidade litorânea, revelando os traços da cultura nativa a estrangeiros. Certa vez tentei explicar a um jovem casal europeu que a maior "manifestação cultural" de "nosso povo" ("simples e hospitaleiro") consiste em matar gatos - tamborim, churrasquinho de porta de estádio. Não sei se fui capaz de comunicar-lhes a espontaneidade naïf da prática; de qualquer maneira, eles ficaram um tanto deprimidos, especialmente a moça. É chato, mas prefiro ser honesto àquela outra especialidade nacional, perdigotar conselhos de vida para o resto do planeta. Como se brasileiro fizesse alguma idéia do que é vida.

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