February 27, 2004


NENHUM DOS MEUS "AMIGOS" JAMAIS ME PERGUNTOU QUANTAS GELADEIRAS EU TENHO EM CASA 


Entrei numa comunidade internética, dessas que permitem ao usuário, entre outras coisas, preencher e divulgar um perfil pessoal - de um nível de detalhamento perturbador - e ler os perfis dos outros membros, o que fiz às centenas, voraz. Meu Deus, como as pessoas mentem. ("Pô, me amarro num Arnold Geulincx, morô? Também curto muito filologia sânscrita e dodecafonismo serial, aê.") Formulários, questionários e pesquisas me fascinam. Aquelas perguntas que ninguém jamais quis me fazer, nem meus amigos mais íntimos - quantas geladeiras eu tenho em casa, por exemplo. (A classe econômica depende diretamente do número de geladeiras. Não entendo como alguém consegue passar quatro anos numa faculdade estudando "fiênfiaf fofiaif".) De repente aparece, do nada, uma pessoa que eu não conheço querendo ativamente saber a resposta - e, o que me deixa pasmo, a resposta terá uma utilidade para alguém, mesmo que apenas a de alimentar um banco de dados. Como se todos os amigos invisíveis que tive na infância adquirissem vida, incrível.

February 25, 2004


ÉPATER L'ARISTOCRATE 


Sempre acabo formando opiniões complexas, moderadas e matizadas sobre tudo o que deveria suscitar reações do tipo "ame ou odeie", como, por exemplo, Sun Ra, David Lynch, Beckett tardio, Kenneth Anger, Jandek e Marcelo Mirisola. E sempre amo ou odeio de cara, com um primarismo sans-culotte, qualquer coisa que admita ponderação cuidadosa e diversidade de pontos de vista. A feiúra ingênita do esteticismo me ofende. Até compreendo a atitude, quando refúgio contra a desolação em torno. Mas, quando me lembro das saídas encontradas por Eliot ou Kafka - ou mesmo por Oscar Wilde, autor da mais brilhante sátira ao esteticismo que já li -, não consigo deixar de pensar que artistas de verdade não precisam disso. Exceto para superar eventuais crises de abstinência de ópio, talvez.

Um dia, se tiver tempo, vou escrever romances de mistério vitorianos no latim mais grosseiro possível, só por piada.

February 23, 2004


A CORRUPÇÃO GERAL DOS COSTUMES 


No meu tempo só se dublavam filmes para crianças. Hoje se dublam filmes para adolescentes também, e não vai demorar para que a tendência chegue aos dramas e filmes de arte. As distribuidoras de cinema conhecem seu mercado: os espectadores não sabem mais usar as legendas (a única explicação possível para considerarem Dogville anti-americano, por exemplo). E virou moda estudar espanhol, a julgar pelo número de escolas que têm surgido. E-s-p-a-n-h-o-l. Antes de saber inglês, francês, grego ou latim. Ninguém tem vergonha na cara? Nos anos 80 essas mesmas pessoas se apresentavam como videomakers, eu me lembro. Eu gostava de assustá-las soltando buscapé na entrada do Madame Satã. Bons, bons tempos.

February 20, 2004


BAD HAIR DAY 


Não me lembro de ter feito pactos dorianos na virgindade, ou pós-a mesma. Sei-me apenas relativamente imune, até agora, às marcas da degeneração em meu semblante. Não tenho a cara de ceifador, a pele curtida e os olhos fundos que mereço. Imagino que a transformação virá rápido, quando recolher-me enfim ao mosteiro ou presídio onde certa versão descafeinada de mim mesmo terminará, querendo ou não, seus dias.

February 17, 2004


CINCO SENTIDOS 


Entre os mais táteis sinais do colapso econômico pode-se incluir a oniausência de sabonete líquido nos banheiros dos cinemas, bares e restaurantes. Pilatos não poderia sequer lavar as mãos, e provavelmente recorreria, para apaziguar a inconsciência, a um ghost writer e um artigo na página de opinião do jornal. Não se faz corte de custos sem eliminar o épico, o simbólico.

February 16, 2004


METAMORFOSES 


Começo o dia "morador". Ao sair de casa, rebaixo-me a "pedestre". Se testemunhar um acidente, a "transeunte"; se ajudar a socorrer a vítima, a "popular". Não me surpreenderei, portanto, se cometer erros crassos de primeiros socorros, cooperando para quebrar mais uma ou duas costelas desavisadas.

February 13, 2004


A BUSCA DA PIADA INTERNA PERFEITA 


Principal motor de todas as modalidades de associação entre seres humanos, do namoro (os apelidinhos) à Maçonaria (os engraçadíssimos nomes dos 33 graus), passando pelos movimentos artísticos e filosóficos (ninguém jamais redigiu um manifesto por outro motivo). Na maioria dos casos, simplesmente perceber a presença da piada interna tem mais graça do que entendê-la. A piada interna consigo mesmo denomina-se literatura de introspecção, o que explica por que seus autores riem por dentro quando homenageados.

February 11, 2004


"ELES", VERSÃO ESTÁTICA 


Fotos de estrangeiros famosos de passagem pelo Brasil: "o ator A, revelação da novela das oito, conversa com o cineasta holandês B na pré-estréia de C"; "o cantor e compositor D troca figurinhas com o jazzista americano E nos bastidores do festival F"; "o antropólogo X confabula com o escritor argentino Y no seminário Z, que agitou a cena literária da cidade". B, E e Y sempre saem nas fotos com a mesma expressão: um vago desprezo, olhos baixos, enfado, o pensamento muito, muito distante. E invariavelmente A, D e X aparecem falando e B, E e Y ouvindo - jamais o contrário. Não consigo entender. Primeiro, não existe vida intelectual no Brasil, e portanto A, D e X deveriam naturalmente adotar a postura de receptores passivos. Segundo, a qualidade das escolas Berlitz locais não permite um discurso articulado em qualquer língua estrangeira. Terceiro, A, D e X só sabem falar de projeto, orçamento e verba para novos Cs, Fs e Zs, com aquela mentalidade de armarinho que depois atribuem a uma entidade do candomblé chamada Burguês. Provavelmente acreditam que o resto do mundo tem a obrigação de ouvi-los. Chego a sentir respeito por Sônia Braga.

February 10, 2004


"ELES", VERSÃO DINÂMICA 


Primeiro instituíram a obrigatoriedade da meia-entrada, como se universitário gostasse de cinema. (Não gosta. Universitário não gosta de nada que não envolva notas de rodapé, cola de sapateiro ou forró.) Depois vieram aquelas leis obrigando as salas a gastar dinheiro com trinta saídas de emergência, equipamento e brigada de combate a incêndio. Um tempo atrás a prefeitura queria obrigar os cinemas a numerar as cadeiras, como nos teatros (o motivo me escapa). E a "cota de tela" para celulóide queimado - também conhecido eufemisticamente como filme brasileiro - cresce todo ano. Fazem de tudo para levar as salas de cinema à falência. Talvez porque dos raros pontos de contato baratos e acessíveis com "eles" e remédio para o autismo nacional. Livros, músicas e fotos não bastam. Devo sobretudo ao cinema a consciência efetiva de que "eles" - todos "eles" - de fato existem, de fato se m-o-v-i-m-e-n-t-a-m e de fato parecem muito melhores, mais espertos e mais bonitos do que o mundo ao meu redor, o que deu início a todo o resto. Algo assim como sair da caverna, em escala Penha-Lapa.

February 05, 2004


BRIGHT FUTURE IN SALES 


Remetentes de papel têm-me por Ilustríssimo Senhor, invariavelmente em abreviações imperfeitas. Eu preferiria Belíssimo Senhor, Bonitinho Senhor ou mesmo Vagamente Bem-Apessoado Senhor; não acredito nas vantagens da ilustração, em qualquer dos sentidos da palavra, sobre a beleza física, sabedoria não só infusa como também cristalizada. Quando ilustre e bela, a moça termina jogando vôlei e outros esportes de baixa sobrancelha, desfilando em escola de samba como destaque ou fazendo pós-doutorado em literatura provençal. Errado, errado e errado. Beleza serve para fritar bifes para quem se ama sem prejuízo econômico ou das mãos.

February 04, 2004


WHIP-ME-MASTER 


Tenho alma de escravo, a título de personal encosto. Cumprimento até as pessoas mais evidentemente repulsivas e quase nunca me retiro "ofendido", mesmo quando provocado em público. Faltam-me coragem e sobretudo physique du rôle. Nas poucas vezes em que fiz isso arranjei mais problemas do que poderia resolver.

Atribuo parte da culpa ao meu gato, que aparentemente me considera portador do Olod'Um Anel, a julgar pelo modo como olha para mim. O que destrói qualquer projeto de aperfeiçoamento.

February 02, 2004


CANCHA 


Fizeram um experimento, certa vez, numa faculdade. Deram uma crônica minha e outra de Machado de Assis, sem revelar os autores, a um grupo de alunos, para que elegessem a melhor. Diz a lenda que eu venci por uma pequena margem. No grupo de controle, perdi por 15 a 1. Ou o contrário. Não sei bem.

Se possível, tratar exclusivamente de temas canônicos: diferenças entre o Rio e São Paulo, tordos, maristas, Aquela Tia Do Interior Que Interpretava Sonhos Para Jogar No Bicho e bandas dos anos 70 com nomes de escritórios de advocacia.

Quando o prato em que se comeu continha "feijão-arroz-e-mistura", recomenda-se cuspir nele, para edificação das gerações.

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