August 10, 2004


A VONTADE DO CÉU 


Minha primeira imagem do inferno foi a Zona Fantasma de Superman II, e até hoje a idéia de ser confinado num espelho - num espelho perpetuamente à deriva - me parece a mais assustadora das punições. Adotei o cristianismo um tanto a contragosto, como segunda opção; fosse eu um William Blake onívoro, escolheria o confucianismo, limitando minhas atividades a estudar os clássicos, organizar cerimônias e preparar os jovens para ser bons funcionários do governo e mestres das gerações futuras. Escreveria breves tratados e crônicas históricas e faria como Lu Bu Wei, que pendurou um exemplar de seu Lu-shi Chun-qiu (Os Anais da Primavera e do Outono de Lu) nos portões da capital e prometeu pagar uma grande soma em dinheiro a quem fosse capaz de acrescentar ou subtrair um único ideograma do livro sem arruiná-lo. E meus discípulos anotariam meus ensinamentos sob a forma de diálogos e aforismos, e depois de minha morte publicariam coletâneas aparentemente erráticas e isentas de qualquer preocupação com a fidelidade à eloqüência original.

Mas para viver assim, nas circunstâncias atuais, é preciso ser publicitário, o que exige, entre vários outros itens, uma copiosa coleção de gravatas humorísticas e a discografia completa do Jamiroquai. E mesmo nessa hipótese eu provavelmente não seria capaz, com minha indômita inaptidão para a vida em sociedade, de me dedicar por completo ao bem comum. No meu caso, portanto, seguir uma religião de solitários e desterrados talvez não seja uma afronta muito grave à ordem das coisas; hierarquia nada mais é do que a virtude sob outro nome, e o reino da Dinamarca está dentro de vós.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?